
Uma coisa que minha sogra sempre diz é que quem consome muito o tempo todo é frustrado e está tentando acalmar essa frustração. Parece verídico, né mesmo? A gente não se sente feliz com o que tem e fica procurando um não sei o quê que faz a maior falta. Mas uma coisa que eu aprendi é que ser assim é questão de escolha. Eu, por exemplo, escolhi parar.
Explico: eu estava em um emprego bacana, ganhando bem o suficiente pra manter meus “luxinhos”. Comia fora umas três vezes por semana, comprava roupa ou maquiagem nova umas duas. Nunca fui de comprar coisas caras, sempre fui fã de uma boa pechincha e um brechózinho. Mas em quantidade o barato sai caro também e a verdade é que meu dinheiro ia pra um buraco sem fundo.
Quando saí desse emprego, aproveitei o tempo pra me questionar onde esse consumismo estava me levando. Descobri que minhas contas eram, ahm, maiores do que eu poderia pagar com o que ganhava (quem nunca?). E sabe qual minha maior justificativa pra fazê-las? Uma coisa que eu achava que era amor próprio, mas era só pena de mim mesma.
Veja se você reconhece essa frase “Eu trabalho tanto, me dedico tanto, que se nem esse par de botas/casaquinho/batonzinho/sorvetinho eu puder comprar, não vale a pena”. Reconheceu, né? Você é a autora dela, diz isso pra si mesma cada vez que fica triste com seu ritmo de vida. Só que é essa frase que me levava a comprar batonzinhos mil e nunca ter dinheiro pra investir num carro, na entrada de um apê, numa viagem bacana… E pra pagar eu sacrificava os jantares com o noivo em casa, um bom livro ou tempo pra almoçar (sem cansaço) com a família no domingo.
Eu tenho uma teoria sobre isso: somos filhos de baby boomers, aquela geração que trabalhava pra caramba (incluindo mamães) e que voltava pra casa com presentes pra gente pra compensar. Então a gente aprendeu que tá tudo ok se presentear. O que ninguém para pra pensar é no quão burro isso é: a gente se mata pra ganhar mais dinheiro e gasta mais pra não se sentir perdendo algo com isso.
Esse mal é especialmente tortuoso pra mulheres: os filmes, revistas e séries dizem que a gente tem que ser independente e ter uma carreira de sucesso e trabalhar mil horas semanais. E que depois a gente tem que pegar esse dinheiro e gastar todo em creme pra cabelo porque não adianta nada ser independente se você não é bonita, feminina e chiquérrima e fina. Você só pode ser feliz com os sapatos certos.
[Pra mim, isso não é liberdade, é transferência de propriedade. Antigamente, nossos donos eram nossos pais e maridos - que podiam ser uns trogloditas mas tinham alguma ligação emocional conosco. Hoje, são os detentores do capital, os nossos chefes que dominam nosso tempo e os produtores de sapatos que dominam nosso dinheiro. Não, eu não sou contra o feminismo - sou a favor de mulheres independentes de verdade. Felizes com o que produzem e com o que compram e com o que investem seu tempo. Mas isso fica pra outro post
.]
Agora me conta aqui: não daria na mesma diminuir a velocidade, optar por salários mais baixos, mas felicidade de verdade? Por menos consumo e mais vida real?
Eu resolvi trabalhar em casa. Não tenho tanto volume de serviço como tinha na agência, nem tanto dinheiro. Mas tenho muito, muito tempo pra mim. Eu consigo cozinhar minhas próprias refeições, cuidar da minha própria casa e manter minha vida num bom curso. Eu tenho tempo pra ir ao médico quando preciso, pra ir a um banco, pra ir a feira e ao mercado no dia de oferta. Eu tenho tempo de curtir minha família, de ler um livro e assistir filmes legais. E isso me preenche de forma tão completa que parece até piegas dizer.
A maior dificuldade que achei que ia sentir era a de ir a um shopping e não comprar tudo que eu gostasse. Mas eu fiquei mais crítica e, muitas vezes, saio às compras e volto de mãos abanando. Agora, eu sei que só mereço o melhor. Então, se o preço não vale a pena, a costura não é ótima, a cor não combina, o caimento não me favorece… Hmmm, tchau! Não vou comprar, não!
No último quinto dia útil eu cortei caminho pelo Shopping Mueller (coisa que faço sempre, moro super perto) e percebi uma movimentação incomum: era o quinto dia útil e semana de liquidação – as pessoas estavam desesperadas pra comprar. Não sabiam nem o que, nem o porquê sairam de casa, mas queriam comprar, comprar, comprar e comprar mais um pouco. Eu achei estranho aquilo, vim pra casa e, enquanto fazia um bolo, percebi que eu era parte dessa massa há 3 quintos dias úteis atrás.
Eu não preciso mais tapar buracos e acho que isso é só o que eu busquei a vida toda. Mas, sabem, eu só consegui quando entendi o porquê ia parar de consumir. Meu objetivo maior era viver bem com minha família e ter paz de espírito – a forma que consegui isso foi diminuindo o ritmo de trabalho e trocando dinheiro por tempo. Pode ser que o que você queira seja fazer uma viagem incrível e conhecer outro país. Ou pode ser que seja comprar seu carrinho e ser mais independente com isso. Ou pode ser que seja trocar de carreira, começar do zero e finalmente fazer o que você gosta.
Não importa o que seja que te move, você precisa descobrir. Porque quando você descobre, não tem mais buraco pra tapar, sabe? Você tá completa. Eu acho que o principal sobre isso é que não devemos ir nem tanto ao mar nem tanto a terra muito menos julgar a escolha alheia: pode ser que você descubra que gosta muito do seu trabalho e que ele te preenche e você não precisa gastar cada níquel em presentes pra si mesma – e isso é ok. Ou pode ser que descubra (como eu) que quer fazer uma parceria com o seu marido, ficar em casa cuidando das coisas e trabalhando menos e ter mais tempo pra sua família. Isso também é ok. Pode ser que você descubra que quer viajar o mundo vendendo velas aromáticas – o que também é ok. Entenderam? Toda forma de vida que te preenche e realiza é ok.
O que não é ok, o que a gente tem que parar de achar normal é essa busca por se recompensar com presentes que não precisamos. Você pode repetir roupa, gata. O que você não pode é continuar infeliz e frustrada.